Quanto custa carregar um carro elétrico: em casa, no eletroposto e na viagem
O custo da recarga tem três faixas bem distintas: em casa, na tarifa residencial, o kWh sai entre R$ 0,75 e R$ 1,10 conforme a distribuidora e a bandeira tarifária; nos eletropostos de rede, entre R$ 1,50 e R$ 3,50; e em pontos de comércio, muitas vezes zero, como cortesia ao cliente. Como um carro elétrico compacto gasta cerca de 15 kWh a cada 100 km, isso significa de R$ 12 a R$ 50 por 100 km, contra R$ 45 a R$ 60 de um carro a gasolina que faz 12 km por litro com o litro a R$ 6. Este guia detalha cada faixa e mostra como ler o preço antes de conectar.
Quem pode cobrar e como
A recarga de veículo elétrico foi regulamentada pela Resolução Normativa ANEEL nº 819, de 2018, e consolidada na Resolução Normativa nº 1.000, de 2021: qualquer pessoa ou empresa pode oferecer recarga, inclusive cobrando, sem precisar ser distribuidora, porque a atividade é classificada como serviço e não como venda de energia. O preço é livre. A consequência prática é que a cobrança pode ser por kWh entregue, por minuto conectado, por sessão ou uma combinação, e o valor precisa estar informado antes da ativação. A norma pode ser consultada no site da ANEEL.
O preço nas redes
Nos eletropostos de rede o modelo dominante é o preço por kWh, com variações por potência (DC custa mais que AC) e por horário (algumas redes cobram menos entre 21h e 8h). Entre os pontos com preço declarado na nossa base, a mediana fica em torno de R$ 2,00 por kWh; um quarto cobra até R$ 1,70 e um quarto cobra R$ 2,40 ou mais. Veja os valores atualizados na página de estatísticas e, ponto a ponto, nas fichas de cada rede.
| Situação | Preço típico do kWh | Dolphin (44,9 kWh), 10% a 80% | Seal (82,5 kWh), 10% a 80% | Custo por 100 km (15 kWh) |
|---|---|---|---|---|
| Casa, tarifa residencial | R$ 0,90 | R$ 31 | R$ 58 | R$ 13,50 |
| Casa, tarifa branca fora de ponta | R$ 0,70 | R$ 24 | R$ 45 | R$ 10,50 |
| Rede, carregador AC | R$ 1,60 | R$ 56 | R$ 103 | R$ 24 |
| Rede, carregador DC | R$ 2,40 | R$ 84 | R$ 154 | R$ 36 |
| Rede DC premium em rodovia | R$ 3,20 | R$ 112 | R$ 205 | R$ 48 |
| Gasolina a R$ 6,00, 12 km/l | — | — | — | R$ 50 |
Os valores de recarga já incluem as perdas (cerca de 8% em DC e 10% em AC): o app cobra pelo que o carregador entregou, não pelo que a bateria guardou.
Taxas além do kWh
- Taxa de ativação: valor fixo por sessão, de R$ 2 a R$ 6, cobrado por algumas redes para cobrir o custo de transação. Pesa em recargas curtas.
- Taxa de ociosidade: cobrança por minuto (R$ 0,50 a R$ 2,00) depois que a recarga termina e o carro continua conectado. Existe para liberar a vaga; algumas redes dão 5 a 10 minutos de tolerância.
- Cobrança por tempo: alguns pontos AC cobram por hora conectada em vez de por kWh. Num carro de 7 kW numa tomada de 22 kW, você paga o tempo mas recebe só 7 kW; leia o modelo antes de ativar.
- Pré-autorização: o app bloqueia um valor no cartão (R$ 50 a R$ 200) no início da sessão e cobra o real ao final. O bloqueio some em alguns dias, mas aparece no limite do cartão.
Recarga gratuita
Shoppings, supermercados, concessionárias, hotéis e alguns prédios públicos oferecem recarga sem cobrança, quase sempre em corrente alternada de 7 kW a 22 kW. A lógica é atrair e reter o cliente: duas horas de compras rendem 15 a 40 km. Há também pontos DC gratuitos, em geral de concessionárias para clientes da marca ou de programas de prefeituras, mas são exceção. A base marca os pontos com custo declarado como zero; a página de cada estado mostra quantos há. Confirme no local: a cortesia pode ter limite de tempo, exigir consumo mínimo ou ter sido encerrada sem que a fonte atualize.
Carregar em casa: tarifa e tarifa branca
A tarifa residencial convencional cobra o mesmo valor em qualquer hora. A tarifa branca, opcional para consumidores de baixa tensão, cobra mais entre 18h e 21h (ponto) e menos fora desse horário, em especial de madrugada. Para quem carrega o carro à noite, ela pode reduzir o custo do kWh em 20% a 30%; a adesão é pedida à distribuidora e pode ser desfeita depois de um ciclo. Os valores de cada distribuidora e o funcionamento das bandeiras tarifárias (verde, amarela e vermelha, que acrescentam de zero a alguns centavos por kWh) estão publicados pela ANEEL. Some ainda a energia solar: quem tem geração própria e crédito sobrando carrega a custo próximo de zero, o que mudou o cálculo de muitas famílias.
O gasto mensal de um carro que roda 1.500 km é de 225 kWh, o equivalente a uma geladeira grande e um chuveiro elétrico juntos. Numa conta de R$ 0,90 por kWh são R$ 200 por mês, contra R$ 750 de gasolina para a mesma distância.
Como comparar antes de conectar
Três perguntas resolvem a maioria dos casos. Primeira: o preço é por kWh ou por tempo? Se for por tempo, quanto o meu carro aceita nessa tomada? Segunda: há taxa de ativação ou de ociosidade, e de quanto? Terceira: eu preciso mesmo de DC agora, ou posso completar em AC mais barato no destino? Em viagem, a resposta costuma ser "preciso de DC"; na cidade, a recarga cara em rodovia raramente compensa quando há wallbox em casa ou ponto gratuito no trabalho. As fichas dos eletropostos trazem o preço quando o cadastro informa e a calculadora estima o custo da sessão a partir do preço mediano.
Lendo a fatura de uma sessão
O extrato do app de uma recarga DC típica traz quatro linhas: energia entregue (por exemplo, 34,1 kWh), preço unitário (R$ 2,40), taxa de ativação (R$ 5,90) e tempo ocioso (0 min). Total: R$ 87,74. Dividindo pela autonomia recuperada (70% de um Dolphin, cerca de 190 km em estrada), o custo sai a R$ 0,46 por quilômetro, contra R$ 0,50 da gasolina. Ou seja: em recarga rápida de rodovia o elétrico empata com o carro a combustão; a vantagem financeira vem da recarga em casa, onde o mesmo quilômetro custa R$ 0,15. Quem faz muita estrada e não tem wallbox precisa colocar isso na conta antes de comprar. Confira também se a energia cobrada bate com a diferença de percentual no painel: uma discrepância maior que 15% indica perdas anormais ou erro de medição, e o suporte da rede pode estornar.
O que muda o consumo, e portanto o custo
O custo por quilômetro depende do consumo, e o consumo depende do jeito de dirigir mais do que do carro. A 90 km/h um compacto gasta 13 a 14 kWh por 100 km; a 120 km/h, 18 a 20. Ar-condicionado no máximo soma 1 a 2 kWh por hora; subidas longas, chuva e pneus com pressão baixa também pesam. A etiqueta do Inmetro traz o consumo homologado de cada modelo em kWh por 100 km, útil para comparar carros; o programa de etiquetagem veicular está descrito no site do Inmetro. Na prática, some 15% ao número da etiqueta para ter o consumo em uso misto com ar ligado.