Tempo de recarga de carro elétrico: como calcular e o que muda o resultado
A conta básica do tempo de recarga cabe numa linha: energia que falta dividida pela potência que entra. O que complica é que nenhum dos dois números é fixo. A energia que falta depende da faixa de carga e da capacidade útil da bateria; a potência que entra é limitada pelo carregador, pelo carro, pela temperatura e pelo nível de carga naquele instante. Este guia explica cada variável para que a estimativa da calculadora e das fichas dos eletropostos faça sentido na prática.
A fórmula e as perdas
Tempo (horas) = energia necessária (kWh) ÷ potência efetiva (kW). A energia necessária é a capacidade útil da bateria multiplicada pela diferença entre o percentual final e o inicial. Um BYD Dolphin de 44,9 kWh úteis, indo de 10% a 80%, precisa de 31,4 kWh na bateria. Como parte da energia vira calor na conversão, o carregador precisa entregar mais do que isso: cerca de 10% a mais em corrente alternada (o carregador de bordo esquenta) e 8% em corrente contínua. Na conta, os 31,4 kWh viram 34,9 kWh comprados em AC ou 34,1 kWh em DC. É esse número que aparece na fatura do app.
Potência efetiva: o menor dos limites
A potência efetiva é o menor valor entre o que o eletroposto entrega e o que o carro aceita. Em AC, o limite é o carregador de bordo: 7 kW nos modelos de entrada (Dolphin, Kwid E-Tech, Ora 03 básico), 11 kW na maioria dos SUVs e sedãs (Seal, EX30, iX, Megane E-Tech) e 22 kW em poucos modelos (Renault Zoe antigo, alguns Mercedes com opcional). Em DC, o limite é o sistema de gerenciamento da bateria: 40 kW a 65 kW nos compactos, 100 kW a 150 kW nos médios, 200 kW ou mais nos de arquitetura 800 V (Porsche Taycan, Hyundai Ioniq 5, Kia EV6).
| Modelo | Bateria útil | AC máximo | DC máximo | 10% a 80% em DC no limite | 10% a 80% em AC 7 kW |
|---|---|---|---|---|---|
| Renault Kwid E-Tech | 26,8 kWh | 7 kW | 30 kW | 41 min | 2 h 59 min |
| BYD Dolphin Mini | 38 kWh | 7 kW | 40 kW | 43 min | 4 h 14 min |
| BYD Dolphin | 44,9 kWh | 7 kW | 60 kW | 34 min | 4 h 59 min |
| GWM Ora 03 | 48 kWh | 11 kW | 64 kW | 34 min | 5 h 20 min |
| Volvo EX30 | 51 kWh | 11 kW | 153 kW | 15 min | 5 h 40 min |
| BYD Seal | 82,5 kWh | 11 kW | 150 kW | 25 min | 9 h 10 min |
Repare que o EX30, com bateria maior que a do Dolphin, carrega em menos da metade do tempo em DC: a potência aceita conta mais do que o tamanho da bateria. E repare também que em AC de 7 kW a ordem se inverte, porque ali o limite é o mesmo para todos e só a bateria muda.
A curva de carga em corrente contínua
O número de catálogo (60 kW, 150 kW) é o pico, não a média. O sistema da bateria controla a corrente conforme o estado de carga: entre 10% e 50% a potência fica perto do máximo; de 50% a 80% cai em degraus; acima de 80% despenca para 20% ou 30% do pico, protegendo as células. Numa sessão real de 10% a 80%, a potência média fica entre 70% e 85% do pico; é por isso que a calculadora aplica um fator de perdas maior em DC e sugere parar em 80%. Ir de 80% a 100% em DC pode levar tanto tempo quanto ir de 10% a 80%, e em viagem quase nunca compensa: é mais rápido parar duas vezes até 80% do que uma vez até 100%.
Temperatura e pré-condicionamento
Bateria fria carrega devagar. Abaixo de 15 °C o sistema reduz a corrente para evitar dano às células, e em manhãs de inverno no Sul um carregador de 150 kW pode entregar 50 kW nos primeiros dez minutos. Carros com pré-condicionamento (Tesla, Porsche, alguns BYD e Volvo) aquecem a bateria quando o destino no navegador é um carregador rápido; se o seu carro tem a função, ative-a 20 minutos antes de chegar. Calor extremo também limita: em bateria acima de 45 °C, comum depois de horas de rodovia no Nordeste, a potência cai até o sistema de refrigeração resolver.
Carregadores compartilhados e potência nominal
Muitos totens DC têm dois cabos e uma única fonte: 120 kW no total, divididos entre os dois carros conectados. Em rodovia cheia, o "120 kW" do cadastro vira 60 kW para cada um. A ficha de cada eletroposto por estado mostra a potência nominal do cadastro; a potência real numa sessão depende de quantos carros estão conectados. Em AC, a potência nominal da tomada também pode estar limitada pela instalação do local: um carregador de 22 kW ligado a um circuito de 32 A monofásico entrega 7 kW.
Exemplos com números redondos
- Dolphin em wallbox de 7 kW, de 20% a 100%: 44,9 × 0,8 ÷ 0,9 ÷ 7 = 5,7 horas. Cabe numa noite.
- Dolphin em tomada comum de 2 kW, de 40% a 80%: 44,9 × 0,4 ÷ 0,9 ÷ 2 = 10 horas. Só para emergência ou pernoite longo.
- Seal em carregador de 60 kW, de 10% a 80%: 82,5 × 0,7 ÷ 0,92 ÷ 60 = 63 minutos. O carro aceita 150 kW, mas o ponto só entrega 60.
- Seal em carregador de 150 kW, de 10% a 80%: 82,5 × 0,7 ÷ 0,92 ÷ 150 = 25 minutos, com a bateria em temperatura boa.
- EX30 em carregador de 350 kW: o mesmo que em 153 kW, porque o carro não aceita mais que isso.
Quilômetros por minuto: outra forma de olhar
Em viagem, o que interessa não é o percentual, e sim quantos quilômetros cada minuto de parada devolve. Divida a potência efetiva pelo consumo do carro. Um Dolphin que gasta 15 kWh por 100 km e recebe 55 kW de média ganha 55 ÷ 15 × 100 = 367 km por hora de recarga, ou cerca de 6 km por minuto. Um Seal a 130 kW de média com consumo de 17 kWh por 100 km ganha 765 km por hora, quase 13 km por minuto. Em AC de 7 kW, o mesmo Dolphin recupera 47 km por hora, menos de 1 km por minuto: é a diferença entre parar 20 minutos num carregador rápido e dormir num hotel com wallbox. A conta ajuda a decidir onde parar: um ponto de 60 kW a 10 km da rota pode render mais quilômetros por minuto total (contando o desvio) do que um ponto de 150 kW a 40 km. Consumo real varia com velocidade, ar-condicionado e relevo; a 120 km/h o consumo de um compacto passa de 15 para 19 ou 20 kWh por 100 km, e a autonomia recuperada por minuto cai na mesma proporção.
Como usar a estimativa das fichas
Cada ficha de eletroposto neste site traz uma tabela de 10% a 80% para seis modelos de referência, calculada com a potência do ponto e o limite de cada carro. Trate o valor como piso: some 10% a 20% para temperatura e curva de carga em DC. Para outro carro ou outra faixa de carga, use a calculadora, que aceita a bateria e o limite que você informar. Os limites de fábrica constam na etiqueta do Inmetro e no manual do veículo; o programa de etiquetagem veicular do Inmetro publica a autonomia e o consumo homologados no site do instituto.