Eletropostos Brasilonde carregar seu carro elétrico
Garagem de condomínio com carregadores de parede instalados nas vagas

Recarga de carro elétrico em condomínio: o que a lei permite, como aprovar na assembleia e como medir o consumo

29/08/2026 · Equipe Eletropostos Brasil · condomínio, assembleia, legal

Código Civil, convenção, quórum, laudo da entrada de energia, três modelos de medição, rateio, seguro e o roteiro que tem funcionado para tirar a wallbox da vaga do papel.

A garagem coletiva é o lugar em que a recarga de carro elétrico mais emperra no Brasil. Não por falta de tecnologia, e sim por três perguntas que a maioria dos condomínios ainda não respondeu: quem pode instalar, quem paga a energia e se a entrada do prédio aguenta. Este artigo trata das três, com a base legal, os modelos de medição que funcionam, o que costuma ser exigido em assembleia e um roteiro prático para o morador que quer a wallbox na vaga e para o síndico que precisa decidir.

O que a lei diz

Não há lei federal específica sobre recarga em condomínio. O que vale é o Código Civil (Lei nº 10.406, de 2002), nos artigos que tratam do condomínio edilício: a vaga de garagem, quando é unidade autônoma ou área de uso exclusivo, pode receber benfeitorias do condômino desde que não alterem a fachada, não comprometam a segurança nem a estrutura comum, e desde que a convenção não proíba. A instalação elétrica, porém, passa pela área comum (o quadro da garagem, os eletrodutos, a entrada de energia), e é aí que a assembleia entra: obras em área comum dependem de aprovação, e o quórum varia conforme a convenção classifique a obra como útil ou voluptuária. O texto do Código Civil está no portal do Planalto.

Alguns estados e municípios têm leis próprias que obrigam prédios novos a prever infraestrutura de recarga (dutos e capacidade no quadro), e a norma técnica de instalações de recarga, a ABNT NBR 17019, de 2022, traz uma seção sobre edificações coletivas. Nenhuma delas obriga o condomínio existente a instalar carregadores, mas também nenhuma permite proibir de forma genérica: a recusa precisa de fundamento técnico (capacidade elétrica, segurança), e é isso que o laudo resolve.

Esquema comparando medidor individual da distribuidora, circuito puxado do apartamento e infraestrutura coletiva com medição por carregador
Três modelos de medição da recarga em garagem coletiva

A pergunta técnica: a entrada aguenta?

Antes da assembleia, o laudo. Um engenheiro eletricista mede a corrente de entrada do prédio nos horários de pico (em geral entre 18h e 22h, quando chuveiros e ar-condicionado estão ligados), confere o disjuntor geral e o transformador, e calcula a folga disponível. Um prédio de 40 apartamentos com entrada de 400 A trifásica costuma ter folga de 60 a 120 A à noite, o suficiente para 4 a 8 wallboxes de 7 kW sem gerenciamento, ou 15 a 25 com gerenciamento de carga. O laudo custa de R$ 1.500 a R$ 5.000 e é o documento que transforma "acho que não aguenta" em número. Sem ele, a assembleia discute opinião.

Modelo de mediçãoComo funcionaQuem paga a energiaCusto típico por vagaOnde faz sentido
Medidor individual da distribuidoraa distribuidora instala um medidor novo em nome do morador para a vagao morador, na própria contaR$ 2.000 a R$ 6.000 (padrão de medição + instalação)prédios com espaço no quadro de medição e poucas vagas eletrificadas
Circuito do apartamentocabo do quadro do apartamento até a vagao morador, na conta do apartamentoR$ 1.500 a R$ 8.000 (depende da distância)prédios baixos, vaga perto da prumada
Infraestrutura coletiva com medição por carregadorcircuito comum na garagem, carregadores com medidor interno ou app, rateio pelo síndicoo morador, cobrado no boleto do condomínioR$ 3.000 a R$ 6.000 por vaga + obra comum rateadaprédios grandes, muitas vagas, gerenciamento de carga
Carregador compartilhado em vaga comumum ou dois carregadores em vagas rotativas, ativados por app com cobrançaquem usa, por kWhR$ 8.000 a R$ 20.000 por carregadorprimeiro passo em prédios sem consenso; visitantes

O que levar à assembleia

O pedido que costuma passar tem cinco peças. Primeira, o laudo da capacidade, com o número de carregadores que a entrada suporta. Segunda, o projeto da instalação individual, assinado por profissional habilitado, com circuito exclusivo, DR tipo A ou B, cabo dimensionado e trajeto pelos dutos existentes. Terceira, a proposta de medição, de preferência a que não gera custo para o condomínio (medidor individual ou circuito do apartamento). Quarta, o compromisso de custo: a obra é paga pelo interessado, incluindo a recomposição de qualquer área comum afetada. Quinta, a minuta de regra para os próximos: como os demais moradores pedirão o mesmo, que ordem de prioridade vale se a folga acabar e como o condomínio vai decidir o gerenciamento de carga. Convenções mais recentes já incluem um artigo sobre recarga; nas antigas, a assembleia pode aprovar um regulamento específico, com quórum de maioria simples dos presentes na maioria dos casos, ou o que a convenção fixar para alteração do regimento interno.

O que costuma travar: pedidos sem laudo ("não sabemos se aguenta"), medo de incêndio (respondido pela ART e pelas proteções da NBR 5410 e da NBR 17019, ambas no catálogo da ABNT), e o rateio do custo comum (resolvido quando o interessado paga a própria instalação e o condomínio só rateia o que servir a todos, como o gerenciamento de carga).

Gerenciamento de carga: a resposta à entrada pequena

Quando a folga acaba, a solução não é obra na entrada, e sim gerenciamento. Um controlador lê a corrente disponível e distribui entre os carregadores conectados: dez wallboxes de 7 kW num circuito com folga de 30 kW recebem 3 kW cada quando todos carregam ao mesmo tempo, e 7 kW quando só quatro estão em uso. Como a maioria dos carros fica conectada a noite inteira, ninguém percebe a diferença; 3 kW por oito horas são 24 kWh, mais do que o uso diário médio. Sistemas de gerenciamento custam de R$ 5.000 a R$ 20.000 para a garagem inteira, rateados entre os usuários, e dispensam o aumento de carga da entrada, que num prédio pode passar de R$ 50 mil com troca de transformador.

Seguro, responsabilidade e manutenção

A apólice do condomínio deve ser comunicada da instalação; seguradoras têm aceitado sem sobrepreço quando há ART e equipamento certificado, e podem negar sinistro em instalação irregular. A responsabilidade pela wallbox e pelo circuito individual é do morador; pela infraestrutura comum, do condomínio, que deve incluir a inspeção anual (reaperto de bornes, teste dos DRs, verificação dos cabos) no plano de manutenção. O regulamento pode exigir a apresentação da ART, do certificado do equipamento e a inspeção periódica como condição para manter a instalação, e prever a remoção às custas do morador em caso de irregularidade.

Roteiro para o morador

Roteiro para o síndico

Um caso típico: prédio de 60 apartamentos

Um edifício de 60 unidades e 90 vagas, entrada trifásica de 500 A, construído em 2008, sem previsão de recarga. Em 2024, dois moradores pediram wallbox e a assembleia adiou por falta de informação. Em 2025, cinco interessados dividiram um laudo de R$ 3.200: folga de 110 A à noite, 40 A à tarde, transformador da distribuidora com capacidade sobrando. O engenheiro propôs uma infraestrutura coletiva: um circuito novo de 100 A saindo do quadro geral da garagem, uma barra de distribuição no subsolo, dutos passando pelo teto da garagem com caixas de derivação a cada seis vagas e um controlador de gerenciamento de carga limitado a 60 kW. Custo da obra comum, R$ 48 mil, aprovado em assembleia com rateio entre as 60 unidades (R$ 800 cada), com o argumento de valorização e de que qualquer vaga poderia aderir depois pagando só o trecho final. Cada interessado pagou o próprio carregador com medição interna e a derivação até a vaga, entre R$ 3.500 e R$ 5.000. A cobrança da energia é feita pelo software do controlador, que emite um relatório mensal por vaga e o síndico lança no boleto ao custo da tarifa do condomínio, sem margem. Um ano depois, 14 vagas eletrificadas, sem nenhum desarme do geral e sem obra na entrada. O ponto que quase travou foi o rateio da obra comum entre quem não tem carro elétrico; o que resolveu foi o argumento de que a infraestrutura vale para o prédio inteiro, como o elevador vale para quem mora no térreo.

Prédios novos: o que exigir da construtora

Quem compra na planta pode evitar tudo isso exigindo no memorial descritivo três coisas: dutos vazios da prumada até cada vaga (ou até caixas de passagem a cada grupo de vagas), espaço reservado no quadro de medição para medidores adicionais e entrada de energia dimensionada com folga para recarga, o que a NBR 17019 chama de infraestrutura "pronta para recarga". Custa pouco na obra e muito depois: abrir duto em garagem pronta é a parte cara e feia da instalação. Algumas prefeituras já exigem essa previsão para aprovação de projetos novos de edifícios com garagem, e o mercado passou a tratar a vaga "eletrificável" como diferencial de venda. Peça também o projeto elétrico com a carga reservada por escrito, porque memorial genérico ("infraestrutura para veículos elétricos") sem número não obriga a nada.

Quanto custa, no fim

Para o morador, a instalação individual em condomínio fica entre R$ 4.000 e R$ 10.000, o dobro de uma casa, por causa da distância até o quadro e da medição. Para o condomínio, o laudo e um eventual gerenciamento de carga, rateados. O retorno para o morador é o mesmo de qualquer wallbox: R$ 250 a R$ 400 por mês de diferença entre carregar em casa e em eletroposto, o que paga a obra em dois anos; o guia de custos tem as contas. Para o condomínio, a infraestrutura de recarga já entrou na lista do que valoriza o imóvel, junto com portaria remota e medição individual de água; prédios sem previsão de recarga começam a perder compradores que têm ou pretendem ter carro elétrico.

Perguntas frequentes

O condomínio pode proibir? Pode negar um pedido específico com fundamento técnico (capacidade, segurança, trajeto inviável), mas uma proibição genérica na convenção tende a ser questionada judicialmente, porque impede o uso regular da vaga.

Posso usar a tomada comum da garagem? Não sem autorização: a energia é do condomínio e o circuito não foi feito para carga contínua. É a forma mais rápida de criar conflito e risco.

A distribuidora instala o medidor individual? Sim, mediante pedido do morador com anuência do condomínio e espaço no quadro de medição; o prazo varia de 30 a 90 dias.

Quem paga a energia do carregador compartilhado? Quem usa, por kWh, pelo app do fornecedor do carregador; o condomínio recebe o repasse ou define a tarifa.

Inquilino pode instalar? Com autorização do proprietário por escrito e dentro das regras do condomínio, sim; combine no contrato quem fica com a wallbox na saída, porque ela pode ser removida ou negociada como benfeitoria.

O condomínio pode cobrar taxa pela vaga eletrificada? Pode cobrar a energia e o rateio de infraestrutura comum aprovada; taxa arbitrária sem contrapartida costuma ser contestada.

E o carregador portátil na tomada da minha vaga? Se a vaga tem tomada ligada ao apartamento, com circuito adequado e DR, é uma instalação como outra qualquer; se está ligada à área comum, vale a regra do item anterior.

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